quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

A HORA NO BRÔNZEO PORTAL (Homenagem ao Sr. Moacir que aceitou o chamado do Pai)




 

As lúridas estrelas velam-me a vista da lua

Dezembro ensaia passos épicos nessa noite,

A rua silenciosa desenha sombras no trapiche

E não mais reveem a palidez dos meus olhos

Arquejados de medo da insípida escuridão!

 

 Os cachorros ladram sem qualquer disfarce

Enquanto rumo sentindo o cheiro do vento,

As memórias do passado sonham com o sol

E se refrescam no rego d’água que corre

Fugindo de mim para só Deus sabe onde!

 

Me sinto numa tempestade de saudades,

Ora sou menino com cheiro de mato seco

Ora sou jovem enamorado de moça bonita,

Ora sou pai chegando a cavalo da roça,

Ora sou peão vendo o sol sumir no infinito!

 

Ouço vozes longínquas que não identifico

Que me deixam indefinivelmente imóvel,

Decido não dar ouvido às vozes de então

E o cheiro do vento arde nos meus olhos

Levando para longe as cores da noite!

 

Como música as vozes tomavam faces:

Luciana, César, Zanza, Lígia, Léia, Alice,

Vanuza, Davina, Nete, Elza, Nica,

Cota, Ronaldo, Maria Helena, Rosa,

Adriana, Daiane, Raquel, Augusto, Lucas...

E era gostoso aquele alarido doce!

 

A aurora amanhecia suas cores no céu,

Uma borboleta azul voejava orgulhosa

Sorvendo languidamente as lembranças,

A hora já chegava no brônzeo portal

E no terreiro o galo ensaiava seu canto!

 

O voo da borboleta causava-me admiração,

Emitiam sinais como que de presságio divino,

Não podia mais me demorar com as saudades,

Da casa do Pai direi para os meus filhos

Que guardem apenas o que de bom vivemos!

                        

                                                   Maristela Alves 08.12.2020

domingo, 8 de novembro de 2020

SR GERMANO (Em homenagem ao Sr. Germano, vítima do Vírus COVID 19.)


 Envelhecia dentro dos paradoxos do tempo,

Os cabelos reluziam a cor dos anos vividos

Carcomidos pela insignificância do destino,

Em murmúrios inaudíveis falava com Deus

Nele perambulavam os seus olhos de menino!

 

Folheava a bíblia com épica reverência,

Sua fé emanava como perfume de flores

Nas belas manhãs ensolaradas de verão,

Chamava a atenção o sorriso solto no rosto

Que radiava como sol amarelo no coração!

 

Percorria o inconstante caminho da velhice,

Reinventava os dias como vendedor de picolés

Sem que a inutilidade fosse na vida um clichê,

O tempo lhe ensinou a caminhar sem pressa

E a descansar os seus pés à sombra do ipê!

 

O tempo reinou livremente pelos seus dias,

Brincou de dar níveos lapsos em sua audição

E as cores já não exauriam como antigamente,

Assim, cada aniversário festejado com amigos

Era guardado cuidadosamente dentro da mente!

 

Os olhos foi aos poucos enchendo de ausências,

A vida ficou diferente na tristeza do isolamento

Virou passarinho sem asas dentro da quarentena,

Sentiu o peso do tempo escorregar pelos ombros

E a cor da velhice clarear os seus mais de oitenta!

 

Contrariando as cores do sol ao entardecer,

Um vírus que buscava abrigo o encontrou

Sentado a contemplar o áureo crepúsculo,

Foi assim que mergulhou na fria escuridão

O sorriso desenhado nas linhas do opúsculo!

 

Não havia mais vaidade debaixo do sol,

No eloquente silêncio em que mergulhara

Ouviu uma voz intangível a lhe chamar

Despediu-se sem resiliências dessa vida

E num lugar de honra no Céu foi morar!

 

                                               (Maristela Alves, 05.11.2020)




quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

CARNAVAL EM VENEZA















O inverno passeia pelas ruas de Veneza
Com uma inquietude quase inexplicável
Como quem procura alguém na multidão,
Ilumina as águas com pequenos cristais
E pinta de azul o finalzinho da estação!

Contempla a extravagância dos foliões
Com seus rostos ocultos por máscaras
Ostentando glamour e sofisticação,
E lembra nostálgico dos doces tempos
Em que a primavera floria seu coração!

Voa no âmago de um passado remoto
E se vê, de novo, o jovem enamorado
Sonhando com sua melíflua borboleta,
Sorri um amarelo laranja cor-de-sol
Como antes sorria para a sua Violeta!

Vestida como Nobre do século XVIII
Máscara dourada realçando a beleza
Ela exibia encantamento e vivacidade,
Nas tardes de um azul turquesa gélido
Seus olhares exprimiam cumplicidade!

Iluminados pelas luzes que entardecia
Os canais com seus barcos enfeitados
E os sinos guardados pelo anjo Gabriel,
Declararam um ao outro um grande amor
Como amor versado em poesia de Cordel!

Todos os anos retorna a bela Veneza
E divaga pelas praças e ruas estreitas
Na esperança de encontrar o seu amor,
Não ouve o ruflar de asa de borboleta
Não há jardim para amenizar a sua dor!

                               (Maristela Alves, 26/02/2020)