As lúridas estrelas velam-me a vista da lua
Dezembro ensaia passos épicos nessa noite,
A rua silenciosa desenha sombras no trapiche
E não mais reveem a palidez dos meus olhos
Arquejados de medo da insípida escuridão!
Os cachorros ladram sem qualquer
disfarce
Enquanto rumo sentindo o cheiro do vento,
As memórias do passado sonham com o sol
E se refrescam no rego d’água que corre
Fugindo de mim para só Deus sabe onde!
Me sinto numa tempestade de saudades,
Ora sou menino com cheiro de mato seco
Ora sou jovem enamorado de moça bonita,
Ora sou pai chegando a cavalo da roça,
Ora sou peão vendo o sol sumir no infinito!
Ouço vozes longínquas que não identifico
Que me deixam indefinivelmente imóvel,
Decido não dar ouvido às vozes de então
E o cheiro do vento arde nos meus olhos
Levando para longe as cores da noite!
Como música as vozes tomavam faces:
Luciana, César, Zanza, Lígia, Léia, Alice,
Vanuza, Davina, Nete, Elza, Nica,
Cota, Ronaldo, Maria Helena, Rosa,
Adriana, Daiane, Raquel, Augusto, Lucas...
E era gostoso aquele alarido doce!
A aurora amanhecia suas cores no céu,
Uma borboleta azul voejava orgulhosa
Sorvendo languidamente as lembranças,
A hora já chegava no brônzeo portal
E no terreiro o galo ensaiava seu canto!
O voo da borboleta
causava-me admiração,
Emitiam sinais como que
de presságio divino,
Não podia mais me
demorar com as saudades,
Da
casa do Pai direi para os meus filhos
Que
guardem apenas o que de bom vivemos!
Maristela Alves 08.12.2020


