quarta-feira, 21 de julho de 2021

A ENCOMENDADEIRA DE ALMAS (À minha irmã Márcia Alves kkkk)


 Reclinada na poltrona ela contemplava

Inacessível, devagar, em sentinela,

Sem pavanear seus dons divinos!

Dona Lindinha esperava ao lado

Vestida num silenciamento sem fim,

Se via moça formosa, namoradeira,

Debruçada no batente da larga janela,

Achava linda a reza, mas tinha medo,

Desolada, nem olhava para a janela!

A encomendadeira de almas

Vez ou outra endireitava na poltrona

E lhe lançava um olhar de esguelha

Na esperança que falasse algo,

Que se mexesse devagarinho

Ou blasfemasse qualquer coisa,

Mas, nada irrompia o silêncio!

Dona Lindinha elegantemente

Ouvia as vozes passearem

E assim sentiu sua alma esvair,

Arrancou um suspiro languido

Apagou a luz e adormeceu!

Logo chegou Dona Rosilda,

Católica deveras fervorosa

Que marcava com precisão

O início e o fim da reza!

Ouvia os sons do rosário

Como quem sabe tirar ladainha,

 Debulhando conta por conta

Com os dedos já envelhecidos!

As canções entre as rezas

Soavam como bálsamo em sua alma,

Não se recordava de quase nada,

De como havia chegado ali e nem

Da túnica azul que vestia!

Também não lembrava de conhecer

Aquela mulher sentada na poltrona

Que lhe olhava sorrateiramente

Como que encomendando a sua alma!

Tinha medo que o silêncio chegasse

 Junto com a noite que dormitava lá fora

Mas, consternada, apagou a luz

E sem ressentimentos adormeceu!

A encomendadeira mergulhou na poltrona

Que gemia ante seus tesos movimentos,

Esperou mais um bocadinho de tempo

Levantou devagar e saiu para a vida!

                                                 

                                                 (Maristela Alves, 08/07/2021)