Reclinada na poltrona ela contemplava
Inacessível, devagar,
em sentinela,
Sem pavanear seus dons
divinos!
Dona Lindinha esperava ao lado
Vestida num silenciamento sem fim,
Se via moça formosa, namoradeira,
Debruçada no batente da larga janela,
Achava linda a reza, mas tinha medo,
Desolada, nem olhava para a janela!
A encomendadeira de almas
Vez ou outra endireitava na poltrona
E lhe lançava um olhar de esguelha
Na esperança que falasse algo,
Que se mexesse devagarinho
Ou blasfemasse qualquer coisa,
Mas, nada irrompia o silêncio!
Dona Lindinha elegantemente
Ouvia as vozes passearem
E assim sentiu sua alma esvair,
Arrancou um suspiro languido
Apagou a luz e adormeceu!
Logo chegou Dona Rosilda,
Católica deveras fervorosa
Que marcava com precisão
O início e o fim da reza!
Ouvia os sons do rosário
Como quem sabe tirar ladainha,
Debulhando conta por
conta
Com os dedos já envelhecidos!
As canções entre as rezas
Soavam como bálsamo em sua alma,
Não se recordava de quase nada,
De como havia chegado ali e nem
Da túnica azul que vestia!
Também não lembrava de conhecer
Aquela mulher sentada na poltrona
Que lhe olhava sorrateiramente
Como que encomendando a sua alma!
Tinha medo que o silêncio chegasse
Junto com a noite que
dormitava lá fora
Mas, consternada, apagou a luz
E sem ressentimentos adormeceu!
A encomendadeira mergulhou na poltrona
Que gemia ante seus tesos movimentos,
Esperou mais um bocadinho de tempo
Levantou devagar e saiu para a vida!
(Maristela Alves, 08/07/2021)
