segunda-feira, 15 de março de 2021

UMA ROSA EM NOSSA RUA (Em homenagem a nossa ROSE que foi morar no céu).


 Na rua de cristais e de segredos

Florescia frágil uma rosa amarela,

Acomodada no solo macio da vida

Exalava as cores vivas da aquarela!

 

Raiava como sol desperto no horizonte

Em meio a borboletas e passarinhos,

Era tempo contrário, noite enluarada,

Era beleza no perfume e nos espinhos!

 

Por muitos anos floresceu sem medo

Acreditou nos recomeços e no amor,

Teve a lua como amiga das serestas

Nas noites de aconchego e de fulgor!

 

À tardinha vestia-se de lembranças

Para ver a vida passar em desalinho,

Um raio de sol esverdeava seus olhos

Ou azulava de turquesa e de marinho!

 

Quando as cores matizaram o poente

E as crianças corriam felizes pela rua,

Ouviu a voz do vento a sussurrar-lhe

Sentiu-se bem mais amada que a lua!

 

Eram palavras deveras apaixonadas

De um jardineiro outrora enamorado,

Que sentia o perfume suave da rosa

Que zelava pelo raro, pelo amado!

 

Suas pétalas converteram-se em asas

Com cheiro de cerrado ao anoitecer,

Voou insone nos braços do vento

A felicidade embriagava o seu ser!

 

Fechou os olhos bem devagarinho 

E desabrochou um sorriso fugaz,

Vestiu-se das estrelas do firmamento

Sem despedida, sem adeus, em paz!

 

A rua cessou os seus burburinhos

Adormeceu com sentimento de dor,

No céu uma rosa luzia seu perfume

Perfume de eternidade e de amor!

 

(Maristela Alves, 14.03.2021)


quinta-feira, 4 de março de 2021

ZEZÃO


 Quando eu o conheci

Ainda trazia nas têmporas a leveza dos dias

Nas atitudes o delegado que fora um dia,

No vocabulário um repertório de palavrões

E no peito dois, três ou quatro corações!

O café da manhã era bem a sua cara

Arroz, feijão e tudo que da janta sobrara,

Na casa sempre tinha alguém em temporada

Irmão, compadre ou dos filhos uma namorada!

O tempo lhe trouxe o branco nos cabelos

E o limitar dos passos nos terreiros,

Trouxe outras pessoas para a sua vida

Tornando em cores a sua lida!

Foi feliz no seu jeito tão seu de ser

Zombando, sorrindo, querendo viver,

Mas foi na quietude de um quarto branco

Que fechou os olhos por um momento santo

E viu anjos dourados dançando ao léu

Como se o convidasse a sorrir no céu!

Esqueceu, deveras, as despedidas

Ainda ouvia as vozes tão queridas

Mas voava numa leveza perfumada

De asas, de cores, de nova morada!

Amanhecia com deslumbre o horizonte

A escuridão não era mais um amedronte,

 Não se sentia mais assustado

Nem era resiliente desajustado,

Era de novo menino travesso

Que vivia a vida sem avessos,

Era cantiga, era vida, era coração,

Era Zezinho, José, Zé, Zezão!

                                            (Maristela Alves, 03/03/2021)