quarta-feira, 16 de março de 2022

NO DIVÃ

                                                                                                              (Imagem fonte:https:papodehomem.com.br)

Prostado no divã, aborda seus medos,

Confinado em um passado macambúzio

Não ouve a chuva que entardece lá fora,

Nem vislumbra o amarelo das borboletas

Que costuram o colorido em sua janela!

 

Entristecido por ainda ter na algibeira

Quinquilharias que aflingem a sua alma

Sente-se enclaurado dentro do tempo

Enquanto um candeeiro derrama na sala

Tremeluzentes frisos da noite que advem!

 

Exprime sua agonia qual música trovejante

Em quarto nauseabundo de pensão antiga

Vagueando ecos pelos silentes corredores

E preso nas costuras mal feitas do tempo

Não contempla as réstias de luz no vitral!

 

Dentro das masmorras áridas do passado

Fala dos débeis desalinhos que insistem

Em tolher as esperanças ainda presentes

Nas silentes ladainhas rezadas pela mãe

E veladas na solidão que insiste em ficar!

 

Fala com olhos desacostumados de amar

Dentro da tristeza que lhe assola a alma

E enquanto ela deslucida o seu inconsciente

Analisando birrazmente os seus abismos,

Sente, então, a chuva que anoitece lá fora!

                                    (Maristela Alves, 16/03/2022)

sexta-feira, 4 de março de 2022

SEU ANIVERSÁRIO (Para meu precioso, amado e eterno bebezão)


 Os mosaicos que ornam as abóbadas

Dos antigos portais greco-romanos

Refletem o amanhecer nos vitrais

Formando um coral de luminicência

Anunciando que é o seu aniversário!

 

Além, os sinos da igreja bimbalham

Espalhando no ar melodias de cores

Num frenesi a despertar o silêncio

Aveludado nos aprazíveis tons do luar 

Luzido por entre as janelas cerradas!

 

O dia avulta na elegância das horas

Como se despontado de um Canaletto

A retratar o garbo da airosa Veneza

E fantasiado de arco-íris, lume amor,

Para lhe presentear de entusiasmos!

 

Enquanto arrumo o coração em extase

Encontro-o nos regalos deveras fugazes

De sua meninice regada de curiosidade

E acompanho a beleza do seu caminhar

Na limearidade de um mirífico futuro!

 

O vento baubucia um frenesi de sons,

As borboletas principiam seu bailado,

Sorrio em meio a celebração da vida

Para lhe dizer que o amor tem asas

E onde você estiver, sempre estarei!

                                              (Maristela Alves, 03/03/2022)

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

BELA DENTRO DO PÔR DO SOL (Para a minha Thábatta que por onde passa deixa um rastro de luz e cor).





A tarde sobrevinha nas ruas estreitas

E a cor-de-açafrão que cintilava no céu

Abluía qualquer melancolia de outrora,

Passos soavam entre as casas brancas

E ressoavam nas abóbodas cerúleas!

 

Em algum lugar alguém tocava o alaúde

A vibração das cordas repercutia no ar

Anunciando a doce hora da magnificência,

No horizonte as cores do entardecer

Ofuscavam o azul do mar mediterrâneo!

 

Sentia-se tão bela dentro do pôr do sol

Feito grega no horizonte enrubescido

Perfumando as tardes de novembro,

E sorria, num fio de luz coado de laranja,

Só ela sabia o que a tinha feito sorrir!

 

Os tons de carmim luziam os seus cabelos,

Entremeados pela luz em que se colocara

E alinhavavam os voos lilases do beija-flor,

Olhava o infinito perfumado de entardecer

Com pensamentos ensaiando passos de amor!

 

Debruçadas no parapeito das ruinas inertes

Suas asas transcendiam as cores do poente

E contemplavam os novos acordes do azul,

Tal qual Athenas em seu Parthenon

Impressionava na indizível graça de ser!

 

Ao admirar a bela mulher ali parada

Recordo das nossas noites de acalento,

Dos joelhos machucados da infância,

Das suas mãos entrelaçadas nas minhas

E, também, entardeço ao pôr de sol!

 

                                             Maristela Alves, 03/9/2021


 

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

E QUANDO AS VIOLETAS FLORESCEM





 A primavera amanhece a estação

Trazendo consigo o cheiro do sol,

Esterzinha refloresce os seus anos

Tendo nos olhos um brilho afinado

Que esconde sutilmente as marcas

Deixadas pelos trilhos do tempo!

 

A idade lhe sorri entusiasmada

Brincando de esconde-esconde

Com os passos enlanguescidos,

Mas a memória, ainda moça,

Carrega o frescor da manhã

E caminha em lisura celestial!

 

Os cabelos matizados de prata

Reverberam as cores do dia

E as mãos que lidavam no crochê

Agora acariciam suas violetas

Que ensaiam os pequenos botões

Para a dança das borboletas!

 

Quando dentro da noite que cai

As folhas tremulam atrás do vento,

As violetas ainda sentindo o toque

Desabocham em magnificência

Numa explosão de cores e vida

Presenteando com seu perfume!

 

Nos acordes do dia que amanhece

A profusão de perfume invade o ar,

Esterzinha acordada de emoção

Entretida nos seus sentimentos

Caminha entre o tictac do relógio

E o alegre borbulhar do coração!

 

Inerte diante de tamanha beleza

Sem preâmbulos na contemplação

Curva-se em terno agradecimento,

E na beleza imensurável do momento

O sol debruça-se entre as cores

No esvoaçante encanto da vida!!

 

E quando as violetas florescem

Esterzinha luzidia como arco-íris

Depois da chuva fina da estação,

Torna-se cor, flor, borboleta

E voa suas emoções no infinito,

Ela jamais desiste de amanhecer!

                       

                                         (Maristela Alves, 04.10.2021)


quinta-feira, 23 de setembro de 2021

VALENTINA (Para a pequena Valentina que chegou para iluminar, ainda mais, a vida).


 Valentina chegou...

Como feixe de luz celestial

Trajando pele amorenada

E brilho reluzente no olhar,

Mesclada de indizível beleza

E exalando candura e poesia

Do seu puro e aveludado mundo!

 

Floresce desenhada em beleza

Perfumando candidamente

Como flor de ipê no cerrado,

Carrega dentro de si o arco-íris

E vai deixando laivos de cores

Por onde quer que passe!

 

Quando o sol pinta de dourado

As tardes calmas de setembro,

Balbucia sem embaraços

O colorido que a vida lhe dá

E despida de todos os medos

Inspira purpurina de amor!

 

Contagia com sua vivacidade

Como vento a roçar o rosto

E matizada de indizível emoção

Surpreende com sua felicidade

Transformando as horas do dia!

 

Valentina chegou

E sem presa ilumina

Como lampião aceso

Rasgando os bels

Da escuridão!

                               Maristela Alves, 17/09/2021


 

quarta-feira, 21 de julho de 2021

A ENCOMENDADEIRA DE ALMAS (À minha irmã Márcia Alves kkkk)


 Reclinada na poltrona ela contemplava

Inacessível, devagar, em sentinela,

Sem pavanear seus dons divinos!

Dona Lindinha esperava ao lado

Vestida num silenciamento sem fim,

Se via moça formosa, namoradeira,

Debruçada no batente da larga janela,

Achava linda a reza, mas tinha medo,

Desolada, nem olhava para a janela!

A encomendadeira de almas

Vez ou outra endireitava na poltrona

E lhe lançava um olhar de esguelha

Na esperança que falasse algo,

Que se mexesse devagarinho

Ou blasfemasse qualquer coisa,

Mas, nada irrompia o silêncio!

Dona Lindinha elegantemente

Ouvia as vozes passearem

E assim sentiu sua alma esvair,

Arrancou um suspiro languido

Apagou a luz e adormeceu!

Logo chegou Dona Rosilda,

Católica deveras fervorosa

Que marcava com precisão

O início e o fim da reza!

Ouvia os sons do rosário

Como quem sabe tirar ladainha,

 Debulhando conta por conta

Com os dedos já envelhecidos!

As canções entre as rezas

Soavam como bálsamo em sua alma,

Não se recordava de quase nada,

De como havia chegado ali e nem

Da túnica azul que vestia!

Também não lembrava de conhecer

Aquela mulher sentada na poltrona

Que lhe olhava sorrateiramente

Como que encomendando a sua alma!

Tinha medo que o silêncio chegasse

 Junto com a noite que dormitava lá fora

Mas, consternada, apagou a luz

E sem ressentimentos adormeceu!

A encomendadeira mergulhou na poltrona

Que gemia ante seus tesos movimentos,

Esperou mais um bocadinho de tempo

Levantou devagar e saiu para a vida!

                                                 

                                                 (Maristela Alves, 08/07/2021)

segunda-feira, 15 de março de 2021

UMA ROSA EM NOSSA RUA (Em homenagem a nossa ROSE que foi morar no céu).


 Na rua de cristais e de segredos

Florescia frágil uma rosa amarela,

Acomodada no solo macio da vida

Exalava as cores vivas da aquarela!

 

Raiava como sol desperto no horizonte

Em meio a borboletas e passarinhos,

Era tempo contrário, noite enluarada,

Era beleza no perfume e nos espinhos!

 

Por muitos anos floresceu sem medo

Acreditou nos recomeços e no amor,

Teve a lua como amiga das serestas

Nas noites de aconchego e de fulgor!

 

À tardinha vestia-se de lembranças

Para ver a vida passar em desalinho,

Um raio de sol esverdeava seus olhos

Ou azulava de turquesa e de marinho!

 

Quando as cores matizaram o poente

E as crianças corriam felizes pela rua,

Ouviu a voz do vento a sussurrar-lhe

Sentiu-se bem mais amada que a lua!

 

Eram palavras deveras apaixonadas

De um jardineiro outrora enamorado,

Que sentia o perfume suave da rosa

Que zelava pelo raro, pelo amado!

 

Suas pétalas converteram-se em asas

Com cheiro de cerrado ao anoitecer,

Voou insone nos braços do vento

A felicidade embriagava o seu ser!

 

Fechou os olhos bem devagarinho 

E desabrochou um sorriso fugaz,

Vestiu-se das estrelas do firmamento

Sem despedida, sem adeus, em paz!

 

A rua cessou os seus burburinhos

Adormeceu com sentimento de dor,

No céu uma rosa luzia seu perfume

Perfume de eternidade e de amor!

 

(Maristela Alves, 14.03.2021)


quinta-feira, 4 de março de 2021

ZEZÃO


 Quando eu o conheci

Ainda trazia nas têmporas a leveza dos dias

Nas atitudes o delegado que fora um dia,

No vocabulário um repertório de palavrões

E no peito dois, três ou quatro corações!

O café da manhã era bem a sua cara

Arroz, feijão e tudo que da janta sobrara,

Na casa sempre tinha alguém em temporada

Irmão, compadre ou dos filhos uma namorada!

O tempo lhe trouxe o branco nos cabelos

E o limitar dos passos nos terreiros,

Trouxe outras pessoas para a sua vida

Tornando em cores a sua lida!

Foi feliz no seu jeito tão seu de ser

Zombando, sorrindo, querendo viver,

Mas foi na quietude de um quarto branco

Que fechou os olhos por um momento santo

E viu anjos dourados dançando ao léu

Como se o convidasse a sorrir no céu!

Esqueceu, deveras, as despedidas

Ainda ouvia as vozes tão queridas

Mas voava numa leveza perfumada

De asas, de cores, de nova morada!

Amanhecia com deslumbre o horizonte

A escuridão não era mais um amedronte,

 Não se sentia mais assustado

Nem era resiliente desajustado,

Era de novo menino travesso

Que vivia a vida sem avessos,

Era cantiga, era vida, era coração,

Era Zezinho, José, Zé, Zezão!

                                            (Maristela Alves, 03/03/2021)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

A HORA NO BRÔNZEO PORTAL (Homenagem ao Sr. Moacir que aceitou o chamado do Pai)




 

As lúridas estrelas velam-me a vista da lua

Dezembro ensaia passos épicos nessa noite,

A rua silenciosa desenha sombras no trapiche

E não mais reveem a palidez dos meus olhos

Arquejados de medo da insípida escuridão!

 

 Os cachorros ladram sem qualquer disfarce

Enquanto rumo sentindo o cheiro do vento,

As memórias do passado sonham com o sol

E se refrescam no rego d’água que corre

Fugindo de mim para só Deus sabe onde!

 

Me sinto numa tempestade de saudades,

Ora sou menino com cheiro de mato seco

Ora sou jovem enamorado de moça bonita,

Ora sou pai chegando a cavalo da roça,

Ora sou peão vendo o sol sumir no infinito!

 

Ouço vozes longínquas que não identifico

Que me deixam indefinivelmente imóvel,

Decido não dar ouvido às vozes de então

E o cheiro do vento arde nos meus olhos

Levando para longe as cores da noite!

 

Como música as vozes tomavam faces:

Luciana, César, Zanza, Lígia, Léia, Alice,

Vanuza, Davina, Nete, Elza, Nica,

Cota, Ronaldo, Maria Helena, Rosa,

Adriana, Daiane, Raquel, Augusto, Lucas...

E era gostoso aquele alarido doce!

 

A aurora amanhecia suas cores no céu,

Uma borboleta azul voejava orgulhosa

Sorvendo languidamente as lembranças,

A hora já chegava no brônzeo portal

E no terreiro o galo ensaiava seu canto!

 

O voo da borboleta causava-me admiração,

Emitiam sinais como que de presságio divino,

Não podia mais me demorar com as saudades,

Da casa do Pai direi para os meus filhos

Que guardem apenas o que de bom vivemos!

                        

                                                   Maristela Alves 08.12.2020

domingo, 8 de novembro de 2020

SR GERMANO (Em homenagem ao Sr. Germano, vítima do Vírus COVID 19.)


 Envelhecia dentro dos paradoxos do tempo,

Os cabelos reluziam a cor dos anos vividos

Carcomidos pela insignificância do destino,

Em murmúrios inaudíveis falava com Deus

Nele perambulavam os seus olhos de menino!

 

Folheava a bíblia com épica reverência,

Sua fé emanava como perfume de flores

Nas belas manhãs ensolaradas de verão,

Chamava a atenção o sorriso solto no rosto

Que radiava como sol amarelo no coração!

 

Percorria o inconstante caminho da velhice,

Reinventava os dias como vendedor de picolés

Sem que a inutilidade fosse na vida um clichê,

O tempo lhe ensinou a caminhar sem pressa

E a descansar os seus pés à sombra do ipê!

 

O tempo reinou livremente pelos seus dias,

Brincou de dar níveos lapsos em sua audição

E as cores já não exauriam como antigamente,

Assim, cada aniversário festejado com amigos

Era guardado cuidadosamente dentro da mente!

 

Os olhos foi aos poucos enchendo de ausências,

A vida ficou diferente na tristeza do isolamento

Virou passarinho sem asas dentro da quarentena,

Sentiu o peso do tempo escorregar pelos ombros

E a cor da velhice clarear os seus mais de oitenta!

 

Contrariando as cores do sol ao entardecer,

Um vírus que buscava abrigo o encontrou

Sentado a contemplar o áureo crepúsculo,

Foi assim que mergulhou na fria escuridão

O sorriso desenhado nas linhas do opúsculo!

 

Não havia mais vaidade debaixo do sol,

No eloquente silêncio em que mergulhara

Ouviu uma voz intangível a lhe chamar

Despediu-se sem resiliências dessa vida

E num lugar de honra no Céu foi morar!

 

                                               (Maristela Alves, 05.11.2020)