domingo, 8 de novembro de 2020

SR GERMANO (Em homenagem ao Sr. Germano, vítima do Vírus COVID 19.)


 Envelhecia dentro dos paradoxos do tempo,

Os cabelos reluziam a cor dos anos vividos

Carcomidos pela insignificância do destino,

Em murmúrios inaudíveis falava com Deus

Nele perambulavam os seus olhos de menino!

 

Folheava a bíblia com épica reverência,

Sua fé emanava como perfume de flores

Nas belas manhãs ensolaradas de verão,

Chamava a atenção o sorriso solto no rosto

Que radiava como sol amarelo no coração!

 

Percorria o inconstante caminho da velhice,

Reinventava os dias como vendedor de picolés

Sem que a inutilidade fosse na vida um clichê,

O tempo lhe ensinou a caminhar sem pressa

E a descansar os seus pés à sombra do ipê!

 

O tempo reinou livremente pelos seus dias,

Brincou de dar níveos lapsos em sua audição

E as cores já não exauriam como antigamente,

Assim, cada aniversário festejado com amigos

Era guardado cuidadosamente dentro da mente!

 

Os olhos foi aos poucos enchendo de ausências,

A vida ficou diferente na tristeza do isolamento

Virou passarinho sem asas dentro da quarentena,

Sentiu o peso do tempo escorregar pelos ombros

E a cor da velhice clarear os seus mais de oitenta!

 

Contrariando as cores do sol ao entardecer,

Um vírus que buscava abrigo o encontrou

Sentado a contemplar o áureo crepúsculo,

Foi assim que mergulhou na fria escuridão

O sorriso desenhado nas linhas do opúsculo!

 

Não havia mais vaidade debaixo do sol,

No eloquente silêncio em que mergulhara

Ouviu uma voz intangível a lhe chamar

Despediu-se sem resiliências dessa vida

E num lugar de honra no Céu foi morar!

 

                                               (Maristela Alves, 05.11.2020)