Envelhecia dentro dos paradoxos do tempo,
Os cabelos reluziam a cor dos anos vividos
Carcomidos pela insignificância do destino,
Em murmúrios inaudíveis falava com Deus
Nele perambulavam os seus
olhos de menino!
Folheava a bíblia com épica reverência,
Sua fé emanava como perfume de flores
Nas belas manhãs ensolaradas de verão,
Chamava a atenção o sorriso solto no rosto
Que radiava como sol amarelo no coração!
Percorria o inconstante caminho da velhice,
Reinventava os dias como vendedor de picolés
Sem que a inutilidade fosse na vida um
clichê,
O tempo lhe ensinou a caminhar sem pressa
E a descansar os seus pés à sombra do ipê!
O tempo reinou livremente pelos seus dias,
Brincou de dar níveos lapsos em sua audição
E as cores já não exauriam como antigamente,
Assim, cada aniversário festejado com amigos
Era guardado cuidadosamente dentro da mente!
Os olhos foi aos poucos enchendo de ausências,
A vida ficou diferente na tristeza do
isolamento
Virou passarinho sem asas dentro da
quarentena,
Sentiu o peso do tempo escorregar pelos
ombros
E a cor da velhice clarear os seus mais de
oitenta!
Contrariando as cores do sol ao entardecer,
Um vírus que buscava abrigo o encontrou
Sentado a contemplar o áureo crepúsculo,
Foi assim que mergulhou na fria escuridão
O sorriso desenhado nas linhas do opúsculo!
Não havia mais vaidade debaixo do sol,
No eloquente silêncio em que mergulhara
Ouviu uma voz intangível a lhe chamar
Despediu-se sem resiliências dessa vida
E num lugar de honra no Céu foi morar!
(Maristela Alves, 05.11.2020)
