quinta-feira, 23 de setembro de 2021

VALENTINA (Para a pequena Valentina que chegou para iluminar, ainda mais, a vida).


 Valentina chegou...

Como feixe de luz celestial

Trajando pele amorenada

E brilho reluzente no olhar,

Mesclada de indizível beleza

E exalando candura e poesia

Do seu puro e aveludado mundo!

 

Floresce desenhada em beleza

Perfumando candidamente

Como flor de ipê no cerrado,

Carrega dentro de si o arco-íris

E vai deixando laivos de cores

Por onde quer que passe!

 

Quando o sol pinta de dourado

As tardes calmas de setembro,

Balbucia sem embaraços

O colorido que a vida lhe dá

E despida de todos os medos

Inspira purpurina de amor!

 

Contagia com sua vivacidade

Como vento a roçar o rosto

E matizada de indizível emoção

Surpreende com sua felicidade

Transformando as horas do dia!

 

Valentina chegou

E sem presa ilumina

Como lampião aceso

Rasgando os bels

Da escuridão!

                               Maristela Alves, 17/09/2021


 

quarta-feira, 21 de julho de 2021

A ENCOMENDADEIRA DE ALMAS (À minha irmã Márcia Alves kkkk)


 Reclinada na poltrona ela contemplava

Inacessível, devagar, em sentinela,

Sem pavanear seus dons divinos!

Dona Lindinha esperava ao lado

Vestida num silenciamento sem fim,

Se via moça formosa, namoradeira,

Debruçada no batente da larga janela,

Achava linda a reza, mas tinha medo,

Desolada, nem olhava para a janela!

A encomendadeira de almas

Vez ou outra endireitava na poltrona

E lhe lançava um olhar de esguelha

Na esperança que falasse algo,

Que se mexesse devagarinho

Ou blasfemasse qualquer coisa,

Mas, nada irrompia o silêncio!

Dona Lindinha elegantemente

Ouvia as vozes passearem

E assim sentiu sua alma esvair,

Arrancou um suspiro languido

Apagou a luz e adormeceu!

Logo chegou Dona Rosilda,

Católica deveras fervorosa

Que marcava com precisão

O início e o fim da reza!

Ouvia os sons do rosário

Como quem sabe tirar ladainha,

 Debulhando conta por conta

Com os dedos já envelhecidos!

As canções entre as rezas

Soavam como bálsamo em sua alma,

Não se recordava de quase nada,

De como havia chegado ali e nem

Da túnica azul que vestia!

Também não lembrava de conhecer

Aquela mulher sentada na poltrona

Que lhe olhava sorrateiramente

Como que encomendando a sua alma!

Tinha medo que o silêncio chegasse

 Junto com a noite que dormitava lá fora

Mas, consternada, apagou a luz

E sem ressentimentos adormeceu!

A encomendadeira mergulhou na poltrona

Que gemia ante seus tesos movimentos,

Esperou mais um bocadinho de tempo

Levantou devagar e saiu para a vida!

                                                 

                                                 (Maristela Alves, 08/07/2021)

segunda-feira, 15 de março de 2021

UMA ROSA EM NOSSA RUA (Em homenagem a nossa ROSE que foi morar no céu).


 Na rua de cristais e de segredos

Florescia frágil uma rosa amarela,

Acomodada no solo macio da vida

Exalava as cores vivas da aquarela!

 

Raiava como sol desperto no horizonte

Em meio a borboletas e passarinhos,

Era tempo contrário, noite enluarada,

Era beleza no perfume e nos espinhos!

 

Por muitos anos floresceu sem medo

Acreditou nos recomeços e no amor,

Teve a lua como amiga das serestas

Nas noites de aconchego e de fulgor!

 

À tardinha vestia-se de lembranças

Para ver a vida passar em desalinho,

Um raio de sol esverdeava seus olhos

Ou azulava de turquesa e de marinho!

 

Quando as cores matizaram o poente

E as crianças corriam felizes pela rua,

Ouviu a voz do vento a sussurrar-lhe

Sentiu-se bem mais amada que a lua!

 

Eram palavras deveras apaixonadas

De um jardineiro outrora enamorado,

Que sentia o perfume suave da rosa

Que zelava pelo raro, pelo amado!

 

Suas pétalas converteram-se em asas

Com cheiro de cerrado ao anoitecer,

Voou insone nos braços do vento

A felicidade embriagava o seu ser!

 

Fechou os olhos bem devagarinho 

E desabrochou um sorriso fugaz,

Vestiu-se das estrelas do firmamento

Sem despedida, sem adeus, em paz!

 

A rua cessou os seus burburinhos

Adormeceu com sentimento de dor,

No céu uma rosa luzia seu perfume

Perfume de eternidade e de amor!

 

(Maristela Alves, 14.03.2021)


quinta-feira, 4 de março de 2021

ZEZÃO


 Quando eu o conheci

Ainda trazia nas têmporas a leveza dos dias

Nas atitudes o delegado que fora um dia,

No vocabulário um repertório de palavrões

E no peito dois, três ou quatro corações!

O café da manhã era bem a sua cara

Arroz, feijão e tudo que da janta sobrara,

Na casa sempre tinha alguém em temporada

Irmão, compadre ou dos filhos uma namorada!

O tempo lhe trouxe o branco nos cabelos

E o limitar dos passos nos terreiros,

Trouxe outras pessoas para a sua vida

Tornando em cores a sua lida!

Foi feliz no seu jeito tão seu de ser

Zombando, sorrindo, querendo viver,

Mas foi na quietude de um quarto branco

Que fechou os olhos por um momento santo

E viu anjos dourados dançando ao léu

Como se o convidasse a sorrir no céu!

Esqueceu, deveras, as despedidas

Ainda ouvia as vozes tão queridas

Mas voava numa leveza perfumada

De asas, de cores, de nova morada!

Amanhecia com deslumbre o horizonte

A escuridão não era mais um amedronte,

 Não se sentia mais assustado

Nem era resiliente desajustado,

Era de novo menino travesso

Que vivia a vida sem avessos,

Era cantiga, era vida, era coração,

Era Zezinho, José, Zé, Zezão!

                                            (Maristela Alves, 03/03/2021)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

A HORA NO BRÔNZEO PORTAL (Homenagem ao Sr. Moacir que aceitou o chamado do Pai)




 

As lúridas estrelas velam-me a vista da lua

Dezembro ensaia passos épicos nessa noite,

A rua silenciosa desenha sombras no trapiche

E não mais reveem a palidez dos meus olhos

Arquejados de medo da insípida escuridão!

 

 Os cachorros ladram sem qualquer disfarce

Enquanto rumo sentindo o cheiro do vento,

As memórias do passado sonham com o sol

E se refrescam no rego d’água que corre

Fugindo de mim para só Deus sabe onde!

 

Me sinto numa tempestade de saudades,

Ora sou menino com cheiro de mato seco

Ora sou jovem enamorado de moça bonita,

Ora sou pai chegando a cavalo da roça,

Ora sou peão vendo o sol sumir no infinito!

 

Ouço vozes longínquas que não identifico

Que me deixam indefinivelmente imóvel,

Decido não dar ouvido às vozes de então

E o cheiro do vento arde nos meus olhos

Levando para longe as cores da noite!

 

Como música as vozes tomavam faces:

Luciana, César, Zanza, Lígia, Léia, Alice,

Vanuza, Davina, Nete, Elza, Nica,

Cota, Ronaldo, Maria Helena, Rosa,

Adriana, Daiane, Raquel, Augusto, Lucas...

E era gostoso aquele alarido doce!

 

A aurora amanhecia suas cores no céu,

Uma borboleta azul voejava orgulhosa

Sorvendo languidamente as lembranças,

A hora já chegava no brônzeo portal

E no terreiro o galo ensaiava seu canto!

 

O voo da borboleta causava-me admiração,

Emitiam sinais como que de presságio divino,

Não podia mais me demorar com as saudades,

Da casa do Pai direi para os meus filhos

Que guardem apenas o que de bom vivemos!

                        

                                                   Maristela Alves 08.12.2020

domingo, 8 de novembro de 2020

SR GERMANO (Em homenagem ao Sr. Germano, vítima do Vírus COVID 19.)


 Envelhecia dentro dos paradoxos do tempo,

Os cabelos reluziam a cor dos anos vividos

Carcomidos pela insignificância do destino,

Em murmúrios inaudíveis falava com Deus

Nele perambulavam os seus olhos de menino!

 

Folheava a bíblia com épica reverência,

Sua fé emanava como perfume de flores

Nas belas manhãs ensolaradas de verão,

Chamava a atenção o sorriso solto no rosto

Que radiava como sol amarelo no coração!

 

Percorria o inconstante caminho da velhice,

Reinventava os dias como vendedor de picolés

Sem que a inutilidade fosse na vida um clichê,

O tempo lhe ensinou a caminhar sem pressa

E a descansar os seus pés à sombra do ipê!

 

O tempo reinou livremente pelos seus dias,

Brincou de dar níveos lapsos em sua audição

E as cores já não exauriam como antigamente,

Assim, cada aniversário festejado com amigos

Era guardado cuidadosamente dentro da mente!

 

Os olhos foi aos poucos enchendo de ausências,

A vida ficou diferente na tristeza do isolamento

Virou passarinho sem asas dentro da quarentena,

Sentiu o peso do tempo escorregar pelos ombros

E a cor da velhice clarear os seus mais de oitenta!

 

Contrariando as cores do sol ao entardecer,

Um vírus que buscava abrigo o encontrou

Sentado a contemplar o áureo crepúsculo,

Foi assim que mergulhou na fria escuridão

O sorriso desenhado nas linhas do opúsculo!

 

Não havia mais vaidade debaixo do sol,

No eloquente silêncio em que mergulhara

Ouviu uma voz intangível a lhe chamar

Despediu-se sem resiliências dessa vida

E num lugar de honra no Céu foi morar!

 

                                               (Maristela Alves, 05.11.2020)




quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

CARNAVAL EM VENEZA















O inverno passeia pelas ruas de Veneza
Com uma inquietude quase inexplicável
Como quem procura alguém na multidão,
Ilumina as águas com pequenos cristais
E pinta de azul o finalzinho da estação!

Contempla a extravagância dos foliões
Com seus rostos ocultos por máscaras
Ostentando glamour e sofisticação,
E lembra nostálgico dos doces tempos
Em que a primavera floria seu coração!

Voa no âmago de um passado remoto
E se vê, de novo, o jovem enamorado
Sonhando com sua melíflua borboleta,
Sorri um amarelo laranja cor-de-sol
Como antes sorria para a sua Violeta!

Vestida como Nobre do século XVIII
Máscara dourada realçando a beleza
Ela exibia encantamento e vivacidade,
Nas tardes de um azul turquesa gélido
Seus olhares exprimiam cumplicidade!

Iluminados pelas luzes que entardecia
Os canais com seus barcos enfeitados
E os sinos guardados pelo anjo Gabriel,
Declararam um ao outro um grande amor
Como amor versado em poesia de Cordel!

Todos os anos retorna a bela Veneza
E divaga pelas praças e ruas estreitas
Na esperança de encontrar o seu amor,
Não ouve o ruflar de asa de borboleta
Não há jardim para amenizar a sua dor!

                               (Maristela Alves, 26/02/2020)


segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

FRISOS DE SILÊNCIO



Na letargia dessa interminável noite
Pensamentos enfadonhos e inúteis
Brincam como sentinelas na escuridão,
Retraçam asas nos vitrais amarelecidos
Suavemente coloridos à luz do lampião!

Acordes de violão adentram a janela
A melodia dissonante verve o silêncio
E caminha aligeirada pela calçada,
Como sílfide que pavoneia na insipidez
Do breu negro que faz doer a alma!

Meu sono voeja como pássaro noturno
Em meio às débeis luzes da cidade
E me amanhece brisa azul-turquesa,
O relógio traz as marcas do tempo
Já não dá mais contornos à tristeza!

Olho a rua mal iluminada lá fora
Inalienavelmente alheia aos galos
Que tecem as cores da madrugada,
Cinge-me uma mistura de emoções
Vê-lo ali, recostado, em meio ao nada!

A penumbra cobre os olhos negros
Carregados de fugazes mistérios
Mas não o sorriso de mar sereno,
Que tira de mim frisos de silêncio
E me confunde com um mero aceno!

Não sou mais eu no rutilante escuro
Também, ele, não mais ele no retrato
Que emoldurava os meus anseios,
A futilidade das palavras bate asas
Não há, agora, lugar para devaneios!

Entre os voos que o pensamento dá
Aproximou-se com as cores da aurora
E tocou-me os cabelos com sofreguidão,
Não sei por quanto tempo nos olhamos
Só sei o quanto bateu o meu coração!

Sorria um amarelo violeta cor-de-sol
E eu queria dançar de tanta felicidade!
                                                              (Maristela Alves, 19.11.2019)