quinta-feira, 4 de março de 2021

ZEZÃO


 Quando eu o conheci

Ainda trazia nas têmporas a leveza dos dias

Nas atitudes o delegado que fora um dia,

No vocabulário um repertório de palavrões

E no peito dois, três ou quatro corações!

O café da manhã era bem a sua cara

Arroz, feijão e tudo que da janta sobrara,

Na casa sempre tinha alguém em temporada

Irmão, compadre ou dos filhos uma namorada!

O tempo lhe trouxe o branco nos cabelos

E o limitar dos passos nos terreiros,

Trouxe outras pessoas para a sua vida

Tornando em cores a sua lida!

Foi feliz no seu jeito tão seu de ser

Zombando, sorrindo, querendo viver,

Mas foi na quietude de um quarto branco

Que fechou os olhos por um momento santo

E viu anjos dourados dançando ao léu

Como se o convidasse a sorrir no céu!

Esqueceu, deveras, as despedidas

Ainda ouvia as vozes tão queridas

Mas voava numa leveza perfumada

De asas, de cores, de nova morada!

Amanhecia com deslumbre o horizonte

A escuridão não era mais um amedronte,

 Não se sentia mais assustado

Nem era resiliente desajustado,

Era de novo menino travesso

Que vivia a vida sem avessos,

Era cantiga, era vida, era coração,

Era Zezinho, José, Zé, Zezão!

                                            (Maristela Alves, 03/03/2021)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

A HORA NO BRÔNZEO PORTAL (Homenagem ao Sr. Moacir que aceitou o chamado do Pai)




 

As lúridas estrelas velam-me a vista da lua

Dezembro ensaia passos épicos nessa noite,

A rua silenciosa desenha sombras no trapiche

E não mais reveem a palidez dos meus olhos

Arquejados de medo da insípida escuridão!

 

 Os cachorros ladram sem qualquer disfarce

Enquanto rumo sentindo o cheiro do vento,

As memórias do passado sonham com o sol

E se refrescam no rego d’água que corre

Fugindo de mim para só Deus sabe onde!

 

Me sinto numa tempestade de saudades,

Ora sou menino com cheiro de mato seco

Ora sou jovem enamorado de moça bonita,

Ora sou pai chegando a cavalo da roça,

Ora sou peão vendo o sol sumir no infinito!

 

Ouço vozes longínquas que não identifico

Que me deixam indefinivelmente imóvel,

Decido não dar ouvido às vozes de então

E o cheiro do vento arde nos meus olhos

Levando para longe as cores da noite!

 

Como música as vozes tomavam faces:

Luciana, César, Zanza, Lígia, Léia, Alice,

Vanuza, Davina, Nete, Elza, Nica,

Cota, Ronaldo, Maria Helena, Rosa,

Adriana, Daiane, Raquel, Augusto, Lucas...

E era gostoso aquele alarido doce!

 

A aurora amanhecia suas cores no céu,

Uma borboleta azul voejava orgulhosa

Sorvendo languidamente as lembranças,

A hora já chegava no brônzeo portal

E no terreiro o galo ensaiava seu canto!

 

O voo da borboleta causava-me admiração,

Emitiam sinais como que de presságio divino,

Não podia mais me demorar com as saudades,

Da casa do Pai direi para os meus filhos

Que guardem apenas o que de bom vivemos!

                        

                                                   Maristela Alves 08.12.2020

domingo, 8 de novembro de 2020

SR GERMANO (Em homenagem ao Sr. Germano, vítima do Vírus COVID 19.)


 Envelhecia dentro dos paradoxos do tempo,

Os cabelos reluziam a cor dos anos vividos

Carcomidos pela insignificância do destino,

Em murmúrios inaudíveis falava com Deus

Nele perambulavam os seus olhos de menino!

 

Folheava a bíblia com épica reverência,

Sua fé emanava como perfume de flores

Nas belas manhãs ensolaradas de verão,

Chamava a atenção o sorriso solto no rosto

Que radiava como sol amarelo no coração!

 

Percorria o inconstante caminho da velhice,

Reinventava os dias como vendedor de picolés

Sem que a inutilidade fosse na vida um clichê,

O tempo lhe ensinou a caminhar sem pressa

E a descansar os seus pés à sombra do ipê!

 

O tempo reinou livremente pelos seus dias,

Brincou de dar níveos lapsos em sua audição

E as cores já não exauriam como antigamente,

Assim, cada aniversário festejado com amigos

Era guardado cuidadosamente dentro da mente!

 

Os olhos foi aos poucos enchendo de ausências,

A vida ficou diferente na tristeza do isolamento

Virou passarinho sem asas dentro da quarentena,

Sentiu o peso do tempo escorregar pelos ombros

E a cor da velhice clarear os seus mais de oitenta!

 

Contrariando as cores do sol ao entardecer,

Um vírus que buscava abrigo o encontrou

Sentado a contemplar o áureo crepúsculo,

Foi assim que mergulhou na fria escuridão

O sorriso desenhado nas linhas do opúsculo!

 

Não havia mais vaidade debaixo do sol,

No eloquente silêncio em que mergulhara

Ouviu uma voz intangível a lhe chamar

Despediu-se sem resiliências dessa vida

E num lugar de honra no Céu foi morar!

 

                                               (Maristela Alves, 05.11.2020)




quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

CARNAVAL EM VENEZA















O inverno passeia pelas ruas de Veneza
Com uma inquietude quase inexplicável
Como quem procura alguém na multidão,
Ilumina as águas com pequenos cristais
E pinta de azul o finalzinho da estação!

Contempla a extravagância dos foliões
Com seus rostos ocultos por máscaras
Ostentando glamour e sofisticação,
E lembra nostálgico dos doces tempos
Em que a primavera floria seu coração!

Voa no âmago de um passado remoto
E se vê, de novo, o jovem enamorado
Sonhando com sua melíflua borboleta,
Sorri um amarelo laranja cor-de-sol
Como antes sorria para a sua Violeta!

Vestida como Nobre do século XVIII
Máscara dourada realçando a beleza
Ela exibia encantamento e vivacidade,
Nas tardes de um azul turquesa gélido
Seus olhares exprimiam cumplicidade!

Iluminados pelas luzes que entardecia
Os canais com seus barcos enfeitados
E os sinos guardados pelo anjo Gabriel,
Declararam um ao outro um grande amor
Como amor versado em poesia de Cordel!

Todos os anos retorna a bela Veneza
E divaga pelas praças e ruas estreitas
Na esperança de encontrar o seu amor,
Não ouve o ruflar de asa de borboleta
Não há jardim para amenizar a sua dor!

                               (Maristela Alves, 26/02/2020)


segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

FRISOS DE SILÊNCIO



Na letargia dessa interminável noite
Pensamentos enfadonhos e inúteis
Brincam como sentinelas na escuridão,
Retraçam asas nos vitrais amarelecidos
Suavemente coloridos à luz do lampião!

Acordes de violão adentram a janela
A melodia dissonante verve o silêncio
E caminha aligeirada pela calçada,
Como sílfide que pavoneia na insipidez
Do breu negro que faz doer a alma!

Meu sono voeja como pássaro noturno
Em meio às débeis luzes da cidade
E me amanhece brisa azul-turquesa,
O relógio traz as marcas do tempo
Já não dá mais contornos à tristeza!

Olho a rua mal iluminada lá fora
Inalienavelmente alheia aos galos
Que tecem as cores da madrugada,
Cinge-me uma mistura de emoções
Vê-lo ali, recostado, em meio ao nada!

A penumbra cobre os olhos negros
Carregados de fugazes mistérios
Mas não o sorriso de mar sereno,
Que tira de mim frisos de silêncio
E me confunde com um mero aceno!

Não sou mais eu no rutilante escuro
Também, ele, não mais ele no retrato
Que emoldurava os meus anseios,
A futilidade das palavras bate asas
Não há, agora, lugar para devaneios!

Entre os voos que o pensamento dá
Aproximou-se com as cores da aurora
E tocou-me os cabelos com sofreguidão,
Não sei por quanto tempo nos olhamos
Só sei o quanto bateu o meu coração!

Sorria um amarelo violeta cor-de-sol
E eu queria dançar de tanta felicidade!
                                                              (Maristela Alves, 19.11.2019)

terça-feira, 15 de outubro de 2019

O VOO DA BAILARINA (À minha bailarina, pela passagem do seu aniversário)



Com asas de borboleta amarela
Voa graciosa na ponta dos pés,
Borda os contornos da dança
Extraordinariamente bonita
Os cabelos num coque de trança!

No verdor de sua primavera
Borboleta no palco das flores,
Brilha feito fina purpurina
Suspensa na imensidão do céu
Ora estrela, ora bailarina!

Desliza ao som da melodia
Em passos suaves e elegantes,
Graciosamente a vejo dançar
O vento insuflando suas saias
Tecendo seus sonhos de voar!

Baila com a leveza da bruma
E sorriso azulado de safira,
Mas quando toca o chão
Revoa sonhos distantes
No palco de sua imaginação!

Sua delicadeza me mostra
Que o poema também dança,
E que nos mistérios da canção
Onde o tempo não ousa revelar
Sapatilhas desenham no chão!

Vem como a luz da manhã
E traz a brilhosidade do dia,
O seu jeito bailarina de ser
E os calos nos pés me ensinam
Que a arte de perseverar é viver!

Teu voo nessa dança revela
Que o amor floresce na alma,
Que a chuva compõe a canção
Que a beleza é inspiradora
Como as batidas do coração!

Que florir é tornar-se jardim
Quando se tem uma bailarina,
Feito borboleta nas cores do céu
Com as sapatilhas atadas aos pés
Voando harmoniosa ao léu!

Que a música não pare
Durante o voo da bailarina!

                                                 (Maristela Alves, 01.10.2019)

domingo, 13 de outubro de 2019

ESTERZINHA (comemorando suas 77 primaveras, verões, invernos e outonos)


É mulher nordestina,
Sertaneja,
É mulher guerreira,
Não pestaneja!

É mulher religiosa
Nascida em Santana,
É mulher caridosa
De certidão baiana!

É mulher de Deus,
Abençoadeira,
É mulher temente,
Rezadeira!

É mulher frágil
Cheia de medos,
É mulher misteriosa
Tem seus segredos!

É mulher mãe
De sete rebentos,
Mulher querida
De amor suculento!

É mulher presente
Que Deus me deu
É minha mãe
Meu jubileu!

(Maristela Alves)

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

LIMÃO (Amor incondicional)



O pêndulo oscila entre o refúgio
Dentro da manhã aberta de sol,
Nos azuis céreos dos vitrais
Chegou com a cor do arco-íris
Rompendo meus silêncios cruciais!

Já não me sentia mais sozinha
Sua rede de amor me protegia,
Seu jeito todo peculiar de latir
Seu olhar expressivo de festa              
Mudaram deveras o meu existir!

Seu coração esquentou o meu
Nos dias gélidos de inverno,
E no seu colo eu esquecia
Da intemporalidade da vida
Na certeza de que me entendia!

A noite me falava contente
Do seu mundo na varanda,
Dos inquietantes latidos roucos
Dos garis recolhendo o lixo
E da lua falando aos moucos!

Gastava seu latin inteiro
Desconstruindo o tradicional,
E com sua sabedoria canina
Eu aprendia que amar é mais
Que aurora radiosa na campina!

Fiquei pântano sem acordes
Na tarde insossa de agosto,
A luz apagou devagarinho
Semicerrou os olhos enormes
Sem adeus, sem burburinho!

E quando voou na imensidão
Fiquei lua solitária no céu,
Brilhando uma saudade amarela
De quem desaprendeu a sorrir
Vagalumeando como luz de vela!

Eu sei que tudo em mim é
E será eternamente saudade,
Que o guardarei como sol-pôr
Para que eu sorrie ao lembrar
Da enormidade do seu amor...

                                                   (Maristela Alves, 02.10.2019)