sexta-feira, 29 de março de 2019

LUAR SOBRE OURO PRETO

                                                                                                                                               Imagem extraída da internet 


A noite envolve a varanda do casario
Enquanto a cidade adormecida de luar
Agasalha-se em meio às montanhas,
Ouço as batidas do meu coração
E os passos que sobem na escuridão!

A meia-noite há muito havia descido
A ladeira com calçamento de pedra
E se recolhido entre igrejas e altares,
Então, de quem seriam aqueles passos
Marcados em históricos compassos?

Nas curvas das ruas centenárias
Os passos amanhecem meu sono
E param próximo a minha janela,
Tinha a solidão como companheira
E a lua no céu como conselheira!

A madrugada exala seus mistérios
Guardando segredos a sete chaves
Pelas ruas estreitas de Ouro Preto,
No interior do lúgubre casario
Meu coração bate em desvario!

No silêncio que abraça a noite
Espero um estalar de tábuas
Ou um bater de portas abafado,
Mas ouço os passos se afastarem
E com eles meus medos dissiparem!

Levanto e abro uma fresta da janela
E olho lá embaixo a Casa dos Contos
Com seus guarda-corpos de ferro,
Então vejo um caminhante que avança
Como se ensaiasse passos de dança!

Um feixe de luar costura seus passos
Ziguezagueantes pela rua São José
Como se acordes de violão o envolvesse,
Enquanto a cidade amanhece calma
Pergunto quem seria aquela alma!
                                                      (Maristela Alves, 29.03.2019)

segunda-feira, 18 de março de 2019

OVO (Cirque du Soleil) Poema inspirado na apresentação magnífica do Espetáculo "Ovo" dirigido pela brasileira Deborah Colker. BH/MG




OVO (Cirque du Soleil)

Quando polidamente a noite
Tinge de luz as cores do céu
A lua inspira purpurina
E os insetos dançam ao léu,
Como “Poems” de Hemingway
Como espetáculo na Broadway!

Um ovo misterioso aparece
Dele um inseto desajeitado
Que pela fabulosa joaninha
Fica deveras apaixonado,
Inicia uma história de amor
Cheia de desafios e ardor!

A joaninha cheia de encantos
Desfila com graça pensada
Com suas charmosas pintinhas
Olha de soslaio, apaixonada,
Diz “je t'aime” em francês
Com doce sotaque português!

Mas esse desairoso inseto
De passos incertos na dança
Causa confusão no recinto
E voos de desconfiança,
As luzes coloridas a brilhar
Uma música começa a tocar!

A cigarra com suave leveza
canta com voz de soprano
A alegria contagia a todos
Ao som dos acordes do piano,
É poesia nas pontas dos pés
Num laço de cor de viés!

Como bailarina para o poeta
Na linha do tempo e da vida
A aranha tece seus sonhos
Artesã delicada e atrevida, 
A lua com lábios de arrebol
Sorri amarelo violeta de sol!

Na emoção suave dos movimentos
A aranha tece a sua rede
As formigas fazem malabarismos
Os grilos insanos andam na parede,
As pulgas coloridas voam no ar
Exuberantes com a cor do luar!

O fascínio está em todo canto:
Na magia do jardim secreto
Na doçura da joaninha
Na beleza distante do inseto,
Que ao alegre ritmo do samba
Dança até na corda bamba!

                                                 (Maristela Alves, 18/03/2019)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

XANGÓ


Imagem by Caio Alves





















Xangó é cabra da peste
Nas quebradas do sertão
É bicho que avoa rasteiro
Quando a chuva cai no chão
Não tem fama de rogado
Mas tem Deus no coração!

O ardor da seca na cabeça
É vento brando para o valentão,
O sol que lhe arde na tarde
Quer ficar por todo o verão,
Mas o matuto de pele curtida
Sente o calor é no coração!

Canta faceiro que nem sabiá
Ciscando as folhas no chão
No pensamento sua Rosinha
A primavera do seu coração
Mais bonita que lua no céu
Nas noites claras do sertão!

Como sertanejo apaixonado
Que acredita em superstição
Vê perigo por todos os lados
Na terra viva do seu coração
Reza pro santo casamenteiro
Acocorado, o rude barbatão!

Para guardar do mau-olhado
O xodózinho do seu coração
Pede benzimento no domingo
Na porta do velho sacristão,
No terço pendurado no pescoço
E no anel fixo no dedo da mão!

Acredita mesmo no amuleto
Que traz dos anos de solidão,
Uma cabeça do boi suspensa
Relíquia fúnebre no mourão
Daquela que espanta olho gordo
E tristeza de assombração!

Xangó compõe seus silêncios
Nesse pedaço seco de chão
Abraça sua flor de açucena
Cor-de-rosa e de açafrão
Rosinha, arco-íris perfumado,
Aquarela de cores do seu sertão!

                                     (Maristela Alves, 01/02/2019)

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

PRIMAVERA













Como raio de sol nas águas
A primavera vem surgindo,
Reflete as cores do arco-íris
E num silêncio encantador
Amanhece o dia florindo!

Acordou-me mais bonita
O sol batendo no coração,
Floresceu meu caminhar
Trazendo consigo 
Todo o brilho do estação!

Pintor de todas as manhãs
O sabiá amanhece a estação
No céu nuvens matizadas
Feito algodão doce rosado
Floresce o mais triste coração!

E na brilhosidade do dia
No azul infinito do tempo,
Perfuma as borboletas
Que bailam encantadas
Como pétalas ao vento!

Até o monturo renova
Feito caminho de helenas,
Flores lilases se abrem
Os perfumes se espalham
Nas madrugadas serenas!

Quão maravilhoso seria se,
Ao chovesse dentro de nós,
Brotasse a primavera.

Aprecio as flores e sorrio...
"Que triste não saber florir!".

                              (Maristela Alves, 18.10.2018)


quinta-feira, 25 de outubro de 2018

ESTERZINHA


Enquanto os dedos da primavera
Acariciam as tardes de outubro
Como flor afagada pelo vento,
Esterzinha borda suas estrelas
Desfolhando as pétalas do tempo!

As rugas pintadas em seu rosto
Doces pétalas molhadas de orvalho
Memórias indeléveis de sabedoria,
Contam histórias outrora douradas
Que em livro algum caberia!

Os cabelos prateados de agora
Recitam poesia em ladainha
Nos contornos de suas ilusões,
O sorriso marcado no rosto
Enche de paz nossos corações!

Mãos com cheiro de terra molhada
Que em nada lembra a juventude
Tem apenas a duração do instante,
Voam como borboleta a luz do sol
Nas rugas do entardecer brilhante!

E como romaria em ruas indecisas
Que fica feliz em ver nascer o sol
Caminha seus passos semânticos,
Dá graças a Deus pelo dom da vida
Entoa baixinho sagrados cânticos!

Esterzinha tem mesmo muita sorte
Ganhou de Deus a verdura do tempo,
O desabrochar a cada nova estação,
A capacidade de sempre recomeçar
E o esperado milagre da renovação!

... o tempo que lhe sorri com alegria!

                                            (Maristela Alves, 08.10.2018)

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

A MOÇA NO CAMAFEU (Pelo aniversário da minha moça)


Baila célere nas horas douradas
Mistura de borboleta e mulher
Como poesia cantada de Orfeu
Iluminada pelos raios do sol
Imortalizada num camafeu!

Quando de soslaio vê o tempo
Na palidez noturna da lâmpada
Tem prazer na contemplação,
Do âmago dos seus sentimentos
Dá asas rosadas a imaginação!

Em nada lembra a menina tímida
Que coloria sorrisos às lágrimas,
Feito anjo de asas transparentes
Que desperta o sono do poeta
Ainda me sorri como antigamente!

Qual lírio branco do jardim
Que exala perfume invisível,
Assim a moça do camafeu
Com sua beleza viva de rosa
De amor meu coração aqueceu!

E quando a saudade aperta
Nas tardes amarelas de outubro
Enchendo-me de doce nostalgia,
Busco a moça no camafeu
Que me sorri com olhos de alegria!


             (Maristela Alves, 05.10.2018)