sexta-feira, 9 de agosto de 2019

MADSA (Tão airosa nos seus dias...)


À medida que a aurora desabrocha
Colorindo de sol as primeiras horas
Eu a vejo surgir como ipê no cerrado,
Tão airosa no seu florescimento
Que semicerro os olhos inquietantes
Para não dançar de tanta felicidade!
O dia acorda iluminado pelas réstias
Purpúreas do último luar do inverno,
Ainda há vestígios nos cabelos dela
Que tremulam no frio da manhã
Como quem deseja ser acariciado
Por mãos que voam atrás do vento!
Ao raiar do dia ela vem como música
Borboletando desaberta no azul do céu
E adentra no véu sombrio da minha vida
Colorindo de alegria os dias nublados
Mostrando que a alegria não está
Na apatia das coisas, mas nela!
Fico a observar seu sorriso de mar
Quando sorri do nada,
Só ela sabe o que a fez sorrir,
E quando eu olho a olho assim
Sorrindo da mesma forma,
Eu só espero que a música não pare...


                                                 (Maristela Alves, 08.08.2019)

quinta-feira, 25 de julho de 2019

MEMÓRIAS DO PASSADO




À giesta do tempo
Feito borboleta toda azul vivo,
As lembranças já não brilham como antes
Tampouco escorrem pelos meus olhos
Ocultando-me a vista da lua!
                                                                                              
As memórias do passado
Que antes emergiam como sombra
E jaziam sobre o brônzeo portal
Escura e indefinivelmente imóvel
Já não me causam agonia!

As lúridas estrelas
Não mais reveem a palidez
Que a lua, quando baixa no céu,
Desenhava sombra sobre o trapiche
Arqueando medo nos meus olhos!

As ruas despovoadas
Com suas lâmpadas de ferro
A iluminar a noite cálida
Já não me rodeia com seu silêncio
Extraordinariamente enregelado!

O tempo foi magnífico,
Permitiu-me florir
Trouxe-me brilho aos olhos
O rosado das faces feneceu
Já sinto o cheiro do vento!

Como um artesão delicado
Grudou em mim seus olhos verdes
Amanheceu-me com delicadas asas,
Feito mar levou toda a lembrança
E me sorrio um amarelo cor-de-sol!

                                                     Maristela Alves




sexta-feira, 29 de março de 2019

LUAR SOBRE OURO PRETO

                                                                                                                                               Imagem extraída da internet 


A noite envolve a varanda do casario
Enquanto a cidade adormecida de luar
Agasalha-se em meio às montanhas,
Ouço as batidas do meu coração
E os passos que sobem na escuridão!

A meia-noite há muito havia descido
A ladeira com calçamento de pedra
E se recolhido entre igrejas e altares,
Então, de quem seriam aqueles passos
Marcados em históricos compassos?

Nas curvas das ruas centenárias
Os passos amanhecem meu sono
E param próximo a minha janela,
Tinha a solidão como companheira
E a lua no céu como conselheira!

A madrugada exala seus mistérios
Guardando segredos a sete chaves
Pelas ruas estreitas de Ouro Preto,
No interior do lúgubre casario
Meu coração bate em desvario!

No silêncio que abraça a noite
Espero um estalar de tábuas
Ou um bater de portas abafado,
Mas ouço os passos se afastarem
E com eles meus medos dissiparem!

Levanto e abro uma fresta da janela
E olho lá embaixo a Casa dos Contos
Com seus guarda-corpos de ferro,
Então vejo um caminhante que avança
Como se ensaiasse passos de dança!

Um feixe de luar costura seus passos
Ziguezagueantes pela rua São José
Como se acordes de violão o envolvesse,
Enquanto a cidade amanhece calma
Pergunto quem seria aquela alma!
                                                      (Maristela Alves, 29.03.2019)

segunda-feira, 18 de março de 2019

OVO (Cirque du Soleil) Poema inspirado na apresentação magnífica do Espetáculo "Ovo" dirigido pela brasileira Deborah Colker. BH/MG




OVO (Cirque du Soleil)

Quando polidamente a noite
Tinge de luz as cores do céu
A lua inspira purpurina
E os insetos dançam ao léu,
Como “Poems” de Hemingway
Como espetáculo na Broadway!

Um ovo misterioso aparece
Dele um inseto desajeitado
Que pela fabulosa joaninha
Fica deveras apaixonado,
Inicia uma história de amor
Cheia de desafios e ardor!

A joaninha cheia de encantos
Desfila com graça pensada
Com suas charmosas pintinhas
Olha de soslaio, apaixonada,
Diz “je t'aime” em francês
Com doce sotaque português!

Mas esse desairoso inseto
De passos incertos na dança
Causa confusão no recinto
E voos de desconfiança,
As luzes coloridas a brilhar
Uma música começa a tocar!

A cigarra com suave leveza
canta com voz de soprano
A alegria contagia a todos
Ao som dos acordes do piano,
É poesia nas pontas dos pés
Num laço de cor de viés!

Como bailarina para o poeta
Na linha do tempo e da vida
A aranha tece seus sonhos
Artesã delicada e atrevida, 
A lua com lábios de arrebol
Sorri amarelo violeta de sol!

Na emoção suave dos movimentos
A aranha tece a sua rede
As formigas fazem malabarismos
Os grilos insanos andam na parede,
As pulgas coloridas voam no ar
Exuberantes com a cor do luar!

O fascínio está em todo canto:
Na magia do jardim secreto
Na doçura da joaninha
Na beleza distante do inseto,
Que ao alegre ritmo do samba
Dança até na corda bamba!

                                                 (Maristela Alves, 18/03/2019)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

XANGÓ


Imagem by Caio Alves





















Xangó é cabra da peste
Nas quebradas do sertão
É bicho que avoa rasteiro
Quando a chuva cai no chão
Não tem fama de rogado
Mas tem Deus no coração!

O ardor da seca na cabeça
É vento brando para o valentão,
O sol que lhe arde na tarde
Quer ficar por todo o verão,
Mas o matuto de pele curtida
Sente o calor é no coração!

Canta faceiro que nem sabiá
Ciscando as folhas no chão
No pensamento sua Rosinha
A primavera do seu coração
Mais bonita que lua no céu
Nas noites claras do sertão!

Como sertanejo apaixonado
Que acredita em superstição
Vê perigo por todos os lados
Na terra viva do seu coração
Reza pro santo casamenteiro
Acocorado, o rude barbatão!

Para guardar do mau-olhado
O xodózinho do seu coração
Pede benzimento no domingo
Na porta do velho sacristão,
No terço pendurado no pescoço
E no anel fixo no dedo da mão!

Acredita mesmo no amuleto
Que traz dos anos de solidão,
Uma cabeça do boi suspensa
Relíquia fúnebre no mourão
Daquela que espanta olho gordo
E tristeza de assombração!

Xangó compõe seus silêncios
Nesse pedaço seco de chão
Abraça sua flor de açucena
Cor-de-rosa e de açafrão
Rosinha, arco-íris perfumado,
Aquarela de cores do seu sertão!

                                     (Maristela Alves, 01/02/2019)

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

PRIMAVERA













Como raio de sol nas águas
A primavera vem surgindo,
Reflete as cores do arco-íris
E num silêncio encantador
Amanhece o dia florindo!

Acordou-me mais bonita
O sol batendo no coração,
Floresceu meu caminhar
Trazendo consigo 
Todo o brilho do estação!

Pintor de todas as manhãs
O sabiá amanhece a estação
No céu nuvens matizadas
Feito algodão doce rosado
Floresce o mais triste coração!

E na brilhosidade do dia
No azul infinito do tempo,
Perfuma as borboletas
Que bailam encantadas
Como pétalas ao vento!

Até o monturo renova
Feito caminho de helenas,
Flores lilases se abrem
Os perfumes se espalham
Nas madrugadas serenas!

Quão maravilhoso seria se,
Ao chovesse dentro de nós,
Brotasse a primavera.

Aprecio as flores e sorrio...
"Que triste não saber florir!".

                              (Maristela Alves, 18.10.2018)